• Da redação

Já ouviu falar do projeto Bengala Verde? Saiba que ele identifica quem tem baixa visão


Pouco divulgada no Brasil, iniciativa visa diferenciar quem tem pouca visão daqueles que são cegos; morador de Holambra busca conscientizar pessoas e autoridades.

Em 25 de setembro é comemorado o Dia Internacional das Doenças da Retina. No dia seguinte, na Argentina, foi comemorado o “Día del Bastón Verde”. Marcelo Gomes de Silveira, 57 anos, mora em Holambra desde 2004 e aproveitou as datas para divulgar uma ação pouco conhecida pela maioria dos brasileiros: o projeto Bengala Verde, que visa diferenciar – e identificar – as pessoas de baixa visão daquelas que não enxergam.


Marcelo foi diagnosticado com Doença de Stargardt (degeneração macular juvenil congênita que leva à perda de visão progressiva) aos 16 anos, quando já perdeu 40% da visão. Passou a não enxergar letreiro de ônibus e, naquela época – 1976 – a doença era pouco difundido e os profissionais acreditavam que ele teria mais seis meses de visão.

“Passei por vários tratamentos e então foi diagnosticado que a doença não levava à cegueira, mas próximo à cegueira”, disse Marcelo que, hoje, tem 10% da visão (apenas periférica, perdeu a visão central).

Entre o ver e não ver

Marcelo defende a causa da Bengala Verde porque “passou a juventude e a vida todinha com o problema de não ser cego total, mas tinha baixa visão acentuada”. Nunca usou prioridades, como as filas preferenciais, porque “quem olha, acha que enxergo”.

“Enxergo vultos, vejo cores. Fiz curso de mobilidade, de braile, mas não usava bengala porque as pessoas achavam que eu não tinha problemas”, explicou, ao citar que a bengala verde foi lançada na Argentina, em 1996 (os cegos usam bengala branca), e, no Brasil, o primeiro movimento aconteceu apenas em 2014.

Segundo Marcelo, quem tem baixa visão sente restrição em relação ao uso da bengala branca porque é rotulada como cega ou até mesmo de mentirosa. A bengala verde, explicou, é para isto: identificar que se trata de uma pessoa com deficiência visual, mas com resíduo visual, e que eventualmente precisa de ajuda.

O uso desta bengala – e a divulgação da sua finalidade – pode evitar situações constrangedoras. “É difícil chegar em uma rua, olhar a placa e não conseguir ler o nome. Se pedimos ajuda, a pessoa fica indecisa”, disse, ao citar outro episódio: uma vez, em um supermercado, não conseguiu ler o preço e pediu ajuda para uma senhora que, educadamente, lhe disse que também era analfabeta.

“Se todos sabem sobre a bengala verde, não precisamos contar a nossa história toda vez que pedimos ajuda”, disse, ao informar que comprou uma bengala verde. “Comecei a usar a bengala verde recentemente. Ajuda na hora de atravessar a rua: identifico os obstáculos e o motorista entende que há uma pessoa com dificuldade para enxergar por perto”.

Holambra para todos

Marcelo classifica Holambra como uma cidade “deliciosa, tranquila para se morar”. Mas acredita que, como é uma estância turística, poderia investir em melhorias para facilitar a vida de moradores com baixa visão – e aí lembrou que idosos também passam por esta dificuldade e podem fazer uso da bengala verde – e dos visitantes com deficiência visual (total ou parcial).

Acredita que uma inciativa seria a colocação de piso tátil “pelo menos nos pontos turísticos”, como ao longo da rua Campo de Pouso, Boulevard Holandês e na Maurício de Nassau, chegando até o Moinho Povos Unidos.

Lembrou que em algumas cidades é comum os restaurantes contarem com pelo menos um cardápio em braile e acredita que esta medida poderia ser implantada por aqui. “Seria interessante, pois esta medida daria mais autonomia para a pessoa”, completou.

Piso tátil

Hoje, em Holambra, há piso podotátil apenas no entorno do Lago Holandês (que passa por reforma), em um trecho do Parque da Cidade e na Escola Parque dos Ipês. Segundo a Assessoria de Imprensa da prefeitura, o projeto de remodelação prevê piso podotátil na Rota dos Imigrantes, não estando previsto nas obras em andamento (como Cidade das Crianças). Porém, acrescentou que obras de acessibilidade serão incluídas no Plano Municipal de Mobilidade, que segue em estudos.

O que é o Bengala Verde

Em 1996, para ajudar quem enfrenta dificuldades específicas do universo da baixa visão, a professora uruguaia de educação especial Perla Mayo, que atua na Argentina, criou a bengala verde – cor que representa a esperança, de “ver-de outra maneira”, de “ver-de novo”.

Com isso, a intenção da diretora do Centro Mayo de Baja Visión, localizado em Buenos Aires, foi contribuir para a aceitação do uso da bengala pelas pessoas com baixa visão (que rejeitam muito a bengala branca por ser um símbolo da cegueira), para a identificação da pessoa com baixa visão pelas outras pessoas e para a construção de uma noção de pertencimento a um grupo ainda imerso na invisibilidade social.

Vários países já contam com ações voltadas ao Projeto Bengala Verde. No Brasil, no dia 13 de dezembro de 2014, ocorreu o lançamento deste projeto pelo Grupo Retina.

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