• Da redação

Tábua de logaritmos


Há muitos anos, uma senhora que trabalhava em nosso sítio me procurou e disse: - A senhora pode comprá esse livro que tá escrito aí? É pro meu fio.

Leio: “Tábua de Logaritmos, escrito num pedaço de papel de pão.

E ela continua: “Tão difícil encontrar esse livro nessa região. Como se arrumam aqueles que não têm a quem recorrer? A sinhora num magina! O meu fio teve sorte de ainda ficá sabendo que isso era livro. Teve os colega dele que foi tido no marceneiro e mandou serrá uma taboa, escrito aí no paper. Pensaro que era madeira”.

Isso que chega a parecer piada é pura verdade. Os protagonistas do fato estão tão vivos como nós. Tão vivos como nossa realidade: tira-se o menino da roça para ser doutor.Tira-se o menino da roça para mandar serrar a Tábua de Logaritmos no marceneiro! É lamentável!


Moleque, ainda ele sabe, por ter aprendido com seu pai, enxertar mil roseiras em um só dia! Embalar rosas para a exportação! Pulverizar plantas com maestria! Semear, desbastar, colher e acondicionar legumes para o mercado interno!

Mas não tem algum incentivo que o entusiasme a se preparar para ser um bom técnico agrícola. Claro que por falta de recursos especializados. Porque, apesar de conhecer muito pela prática, vê-se que ele quer algo mais que lhe falta para o melhor desempenho de suas tarefas.

Assisti a uma inseminação artificial de gado feita por um menino. Tudo perfeito! Depois de nove meses o filhote nasceu lindo, forte, apesar do papai touro, premiado, já ter morrido há tempos nos “States”.

Não é maravilhoso? Mas, o lamento geral dos pais desses meninos é esse: cursam o primeiro e segundos graus e se conseguem chegar ao Cursinho já não querem mais voltar para a zona rural.

Encontram-se com a cidade grande e se não conseguem entrar em alguma faculdade, empregam-se em qualquer serviço e abandonam a roça, onde teriam um terreno fértil para desenvolver seus conhecimentos.

Quantas vezes numa refeição da roça encontramos leite, verduras, legumes, pão, ovos, queijo, manteiga, frutas, tudo produzido no local! Criticar, diremos! De quem é a culpa? É minha, é sua, é nossa!

Enquanto não nos conscientizarmos de que a nossa riqueza maior está na terra, continuaremos a reclamar de tudo e de todos, nesse Brasil maravilhosos, melhor país do mundo!!!

PS – Isso foi escrito em 1982! Felizmente nossos meninos já podem criar raízes aqui, porque, graças ao progresso da cidade, já podem estudar em sua cidade, com escolas especializadas, para sua Formação Agrícola. Aleluia!!!

#IldadeBarros

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