• Da redação

Quadrinista transporta o leitor aos anos 30



Em “O Crime do Restaurante Chinês”, Guilherme Fonseca, de Holambra, baseia-se em fatos reais; jogo online gera desconto para compra do livro

O cenário é São Paulo, anos 1930. Uma família de imigrantes chineses é barbaramente assassinada a golpes de pilão de café no restaurante que dirigia, no centro da cidade. O suspeito é um jovem afrodescendente. Inspirado nesse caso verídico, o quadrinista Guilherme Fonseca, morador de Holambra, reconta a história subvertendo os fatos reais para conceber uma trama fictícia, repleta de mistérios e assassinatos.

A obra, intitulada “O Crime do Restaurante Chinês”, foi viabilizada após premiação do Proac, e será lançada no próximo dia 17, em Holambra, na Hoek Buguer, a partir das 18h30. A digitalização da pintura é assinada por Laís Dias e Mauro Salgado.

Guilherme explica que a narrativa acontece em dois tempos, passado e presente. “Existe também uma história paralela de um detetive incompetente que persegue um assassino cruel. Esses personagens secundários deram origem a um jogo do mesmo nome, disponível no Google Play grátis, que gera um cupom de desconto para a compra do livro de acordo com a performance do jogador”, adiantou.

Para o processo de criação, Guilherme explicou que foram contratamos três atores, os quais foram fotografados em um estúdio para que servissem de modelos “não só para os desenhos, mas, também para que as fotos pudessem ser utilizadas nas artes, principalmente da capa e das guardas do livro”.

Guilherme já lançou “Estação da Luz”, com atmosfera fantástica, e “Automatic Lover”, voltado à ficção científica. Com “O Crime do Restaurante Chinês” finalizado, adianta: já está envolvido com uma adaptação do livro Thérèse Raquin, de Émile Zola. “Dessa vez, acho que finalmente consigo sair da capital paulista para aterrissar em Paris, em 1867”. Confira entrevista com o roteirista e desenhista Guilherme Fonseca.

Jornal da Cidade: Na obra "O Crime do Restaurante Chinês" você aborda relações étnico-sociais no Brasil, ambientadas numa São Paulo do final da década de 1930. Por que o interesse em abordar esse tema?

Guilherme Fonseca: O Brasil é um país de dimensões continentais e tem a quinta maior população do planeta. Durante seus primeiros quatro séculos foi o país que recebeu o maior número de afrodescendentes escravizados. A partir do século XX, imigrantes de muitas nacionalidades começaram a chegar por aqui por dois fatores principais: o primeiro, por incentivos do próprio governo e das elites brasileiras que, após a abolição em 1888, temiam que o país se tornasse uma nação negra (os negros eram maioria naquele momento no Brasil e hoje somam 55% da população do país); e o segundo motivo, as catástrofes sociais decorrentes das duas grandes guerras do século 20. Hoje, passado mais de um século e sendo uma nação rica na diversidade por tantos contrastes culturais, o Brasil, infelizmente, ainda é dividido por uma exclusão étnico-social de proporções assustadoras, mesmo com as iniciativas promovidas, de alguns anos para cá, de inserção, resgate e valorização da cultura e história negra. Como descendente de pessoas que foram escravizadas, eu sempre quis abordar esse tema, mas não sabia muito como fazer isso. Há algum tempo eu queria escrever uma história que abordasse o preconceito e o racismo que assolam o Brasil e que muitos insistem em dizer que não existe. Eu queria criar uma história na qual a opressão estivesse presente, sem que fosse óbvia, mas que seu resultado fosse devastador. Foi então que eu me deparei com esse episódio do passado: um crime terrível ocorrido em 1937. O crime envolvia diferentes etnias e tinha um homem negro como principal suspeito. Essa história real que aconteceu na cidade de São Paulo nos anos 1930 - um período em que a cidade apenas esboçava sua vocação para se tornar uma metrópole - caiu como uma luva para trabalhar esse tema que me acompanhava há tempos. Inspirado nos fatos reais, eu fui em busca de uma nova história, uma trajetória totalmente inédita. Assim, criei o protagonista Corací, um jovem negro que está em busca de novas oportunidades na cidade - assim como milhares de pessoas que ainda hoje migram para São Paulo na expectativa de dias melhores. Corací, um homem bom, enfrentará a opressão desse inimigo invisível, mas bem real: o preconceito.

Jornal da Cidade: A obra, apesar de ambientada há quase um século, é bem contemporânea em alguns aspectos. Como você vê essa questão das relações étnico-sociais no Brasil hoje? Considerando inclusive um contexto de polarização política, acirrada nos últimos meses?

Guilherme Fonseca: Quando comecei a escrever a história, há cinco anos, a situação política e social no país era completamente diferente. (...) Com os descaminhos e as descrenças nas políticas públicas e sociais que nós estamos vivendo hoje, é algo que nos remete a um passado desastroso, porque as polarizações se tornaram contundentes. As vozes extremistas ganharam forças e o que estamos vivendo é uma onda crescente contra a população mais oprimida. É assustador que cidadãos e políticos possam expressar suas ofensas, que pessoas sejam agredidas, que se faça apologia a agressão sem que nenhum órgão - seja administrativo de segurança pública, seja de defesa cível, seja de direitos humanos - intervenha. (...) Na minha ficção a violência e opressão não tem nome, é uma névoa que se espalha e contamina todos, até os mais íntegros acabam sucumbindo. Espero sinceramente que os desdobramentos na vida real sigam outro desfecho. O meu livro, embora recheado de ‘sangue’, é uma obra de arte que busca a reflexão sobre a deterioração das relações humanas e suas consequências.

Jornal da Cidade: Essa obra parece ter um caráter mais histórico. Como você a compara com outras obras suas, como "Estação da Luz", com atmosfera fantástica, e "Automatic Lover", puxando pra ficção científica?

Guilherme Fonseca: Eu, a artista Laís Dias e o Mauro Salgado ralamos muito pra refazer visualmente a cidade de São Paulo dos anos trinta; foi um trabalho exaustivo e as páginas do quadrinho estão recheada de fotos históricas. Nossa maior fonte de referência foi Idelagard Rosental, mas temos pinturas feitas a partir das fotos de Thomas Farkas ou Claude Lévi-Strauss, entre outros. Usamos muitas referências de roupa, objetos e tudo o que encontramos dessa época. O trabalho visual final é uma experiência rica que também tem uma atualização sobre alguns aspectos. Eu queria uma arte colorida e visualmente dinâmica, por isso, durante o processo foi utilizado uma série de camadas de texturas e retículas, o processo foi longo, mas valeu a pena. Em muitos momentos a história assume aspectos do fantástico ao se materializar no fantasma de uma garotinha que persegue a principal vítima, ou um assassino coadjuvante que parece ter saído de uma cova no cemitério. Nesse aspecto, "O crime do restaurante chinês" dialoga muito com meus outros dois trabalhos e, principalmente, porque todos estão ambientados na Capital de São Paulo, onde a cidade também assume um protagonismo ativo. Ela evoca, inspira, corrompe e, algumas vezes, age como juíza, decretando sua sentença que desaba sobre a vida dos meus personagens, que se lançam em suas desventuras esperando que tudo dê certo. Foi assim com Estação Luz, quadrinhos editados pela Devir em 2008; também foi assim com uma série de histórias que se passam em Curitiba e remontam a minha juventude nos anos 1980; o mesmo aconteceu com Automatic Lover, lançado em 2012 e claro, não seria diferente com esse.

Jornal da Cidade: Em "O Crime do Restaurante Chinês" você muda personagens e o desenvolvimento e desfecho da história, se comparado ao fato real ocorrido no final da década de 1930. Como foi esse processo de se apropriar de um fato histórico e transformá-lo numa ficção, uma ferramenta para abordar relações étnico-sociais?

Guilherme Fonseca: Existe um livro fabuloso do historiador Bóris Fausto que narra o crime e todas as abordagens processuais do caso, além de resgatar o cotidiano da cidade de São Paulo do ano de 1938. Essa história caiu como uma luva para trabalhar esse tema (preconceito) que me acompanhava há tempos… Me jogou direto em uma série de insights para que eu pudesse materializar esse desejo.

Jornal da Cidade: Na obra parecem coexistir alguns estilos de desenho e enquadramento, que vão desde uma fotografia envernizada e imagens realistas, até imagens e enquadramentos mais estilizados. Quais influências você pode citar na criação da obra? As imagens realistas utilizam modelos reais? Há fotografias mesmo transformadas em quadros e paisagens na HQ?

Guilherme Fonseca: Sim. Eu e a Laís Dias contratamos três atores (...) para que servissem de modelos não só para os desenhos, mas, também, para que as fotos pudessem ser utilizadas nas artes, principalmente da capa e das guardas do livro. Na história, os personagens são desenhados a partir da referência fotográfica, mas o processo todo envolve muitas camadas, é uma colagem, a gente pintava fundo em aquarela, desenhava, depois levava isso para o computador e juntava com uma série de outras referências. Daí pintava de novo, num processo com muitas etapas.

Jornal da Cidade: Com relação às narrativas da história, como você descreve as formas e técnicas utilizadas?

Guilherme Fonseca: A narrativa acontece em dois tempos; passado e presente caminham numa narrativa simultânea. Existe também uma história paralela de um detetive incompetente que persegue um assassino cruel, esses personagens secundários deram origem a um jogo do mesmo nome, disponível no Google Play grátis, que gera um cupom de desconto para a compra do livro, de acordo com a performance do jogador.

Jornal da Cidade: Quais foram as etapas de produção da obra? Desde os primeiros esboços até a finalização com recursos digitais? Quais as etapas mais demoradas ou que exigem mais tempo de criação?

Guilherme Fonseca: A principal etapa é a dos esboços onde a história se materializa; essa etapa levou cerca de duas semanas. Mas ela está entre dois grandes períodos, o primeiro, uma etapa de pesquisa atrás de referências literárias e iconografias que levaram cerca de um ano, e mais três anos de produção, colorização e editoração, um processo longo que valeu a pena pelo resultado.




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