• Da redação

Com a mão na massa: idosos de Holambra falam sobre os desafios do trabalho

Conheça o que eles pensam sobre a reforma da previdência


O relógio toca as 5h da manhã. Como de costume ele se levanta, toma um gole de água do pode de barro e coloca a sua jaqueta; precisa sair no sereno para alimentar as galinhas. Passa o café, come uma banana e anda pelas cercanias do sítio, verificando se não há nenhuma surpresa. Uma manhã tranquila para o senhor Antônio Pandolfo, de 64 anos, isso se não fosse pelo fato de que, depois dessa rotina matinal, ele ainda precisa vir trabalhar na barbearia. Há 39 anos cortando cabelos uma das galerias da cidade, Pandolfo não se vê fazendo outra coisa: “sou viciado em trabalho”, afirma; e admite que nunca pretende para de trabalhar.

O senhor Antônio é o retrato de uma realidade cada vez mais comum no país. O resultado de uma geração que jurou permanecer jovem para sempre e que, mesmo aos trancos de uma caminhada difícil, cumpre o seu papel quanto cidadão na sociedade. Os idosos estão cada vez mais ativos e, em Holambra não é diferente. Conheça a história de três destes holambrenses:


Sr. Messias - Chaveiro



“Meu nome é Messias Pinheiro da Silveira e tenho 87 anos. Comecei a trabalhar como chaveiro em junho de 1997, com 65 anos”, conta. O senhor Messias é conhecido na cidade pela facilidade com que abre portas, mas poucos sabem sobre as portas que lhe foram abertas para que ele chegasse até aqui. “No passado, eu era inspetor de fertilizantes, mas não consegui me aposentar porque infelizmente perdi a caixinha onde guardava os carnês de contribuição”, relembra. O contexto trágico que a perda lhe causara não foi o suficiente para que ele largasse mão de tudo. Enquanto esperava a resposta do novo pedido de aposentadoria resolveu se tornar chaveiro, como forma de complementar a renda. “Não tenho dificuldades só porque sou velho. Dou de dez a zero nos novinhos”.

Além de chaveiro, Messias é um único em Holambra que conserta máquinas de costura. O trabalho, que começou apenas por curiosidade em 1951, fez com que ele se tornasse referência na cidade. “Quando eu parar, não sei como vamos fazer com os clientes aqui de Holambra. O problema das pessoas mais novas é que elas não querem aprender, não têm o desejo de continuar exercendo profissões simples, como esta”.

Para o senhor Messias trabalhar é um estímulo. “Vejo outros idosos nas esquinas sem propósito, sem vida”, comenta. Quando perguntado sobre quando irá parar ele é enfático: “Como diz o ditado, até acabar a gasolina”. É essa força de vontade e o carisma do idoso que faz com que tantas pessoas de Holambra o conheçam e o estimem.



Mané da Banca


É outra figura marcante de Holambra. “Meu nome é Alcides Apolinário, tenho 70 anos, mas todos me chamam de Mané da banca”. Rodeado de amigos, fica nítido a alegria do idoso em estar trabalhando. “Comecei aqui na banca em 1986, quando tinha 38 anos”, explica. Ele, que já trabalhou como operador de corte, serviços gerais e atuou em diversas construções e reformas na cidade, relembra com carinho os tempos da juventude e enfatiza o quanto foi abençoado desde começou o próprio negócio na banca de revistas ao lado da rodoviária. “Dou informações para as pessoas, conheço gente nova e faço amizade todos os dias. Estou por dentro de tudo o que acontece na cidade, quase como um jornalista”, brinca.

“Não pretendo sair daqui, só quando eu morrer”, afirma Mané da banca, quando questionado sobre o dia em que vai se aposentar. “Amo ser um colecionador de memórias e minhas histórias só vão acabar no dia em que eu partir dessa pra melhor”, acrescenta; e seus amigos riem, concordando com tudo. Faça chuva ou faça sol, ele promete ficar, para alegrar a vida daqueles que o estimam e continuar fazendo amizade com as futuras gerações que chegam em Holambra.



Antônio Pandolfo – Barbeiro


Antônio Pandolfo está com 64 anos, perto da idade de se aposentar. “Moro em Holambra desde os quatro anos, há 39 anos cortando cabelo e, todos os dias, minha rotina é a mesma”, explica. Ele, que quando criança trabalhava na roça com o pai, não deixou o costume de acordar cedo e alimentar os animais, mas como dito no início o seu principal “hobbie” é cuidar das madeixas daqueles que o procuram em seu ofício. “Amo meu serviço. Tenho muitos amigos e mesmo que eu não esteja atendendo sempre tem alguém nesse banquinho, falando comigo. Gosto de pescarias, natureza e sempre tenho alguém para conversar sobre isso”, conta. No fim da conversa, o idoso acaba confessando que quer evitar pensar em aposentadoria até o máximo que puder.




Reforma da previdência

Quando questionados sobre a reforma da previdência a resposta dos três idosos é unânime: há preocupação quanto as pessoas mais pobres que trabalhar em serviços pesados, como no meio rural. “Para nós, o trabalho é uma das melhores coisas que podemos ter na vida mas sabemos que essa não é a realidade para todos os brasileiros”, enfatizam. Os três moradores de Holambra também mostraram-se preocupados quanto ao valor do benefício que não condiz com as necessidades da população.

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