• Da redação

Educadora aponta desigualdade como principal desafio na retomada das aulas presenciais

Atualizado: 12 de nov. de 2021


Com o retorno obrigatório, educadora alerta que escolas e famílias devem estar atentos às dificuldades de adaptação socioemocional



As escolas municipais, estaduais e particulares passaram a receber neste mês 100% dos alunos. O retorno obrigatório iniciou de forma gradual no fim do primeiro semestre e atingiu, agora, todos os estudantes; exceto aqueles que fazem parte do grupo de risco para o Covid-19.


A pedagoga, professora de história e influencer digital Wanderly Moreira Lessa de Araújo disse que vê com entusiasmo essa volta às aulas. “O ambiente escolar, com certeza, é um espaço de conhecimento e grandes descobertas de um valor imensurável”.




Com 22 anos de experiência no setor de educação, Wanderly observou que haverá “muitos desafios” nessa retomada.

“O principal deles no meu ver, será lidar com turmas ainda mais heterogêneas, de um lado os que tiveram suportes para aprender e do outro os que passaram longe do caderno e do lápis”, falou a educadora.



De acordo com ela, os impactos vivenciados pelas famílias, durante a pandemia, serão refletidos agora, efetivamente com essa volta. “Esses quase dois anos de pandemia envolveu distanciamento social, dores, tristezas, medos, incertezas e o pior, a perda de pessoas queridas, sendo que, o luto ainda é vivido em muitos lares”.

A especialista salientou que, por mais que as escolas tentem se preparar, mais do que nunca, deverá ser levado em conta as individualidades e particularidades de cada aluno. “Fácil não será, mas o olhar atento e minucioso do professor será extremamente importante. O envolvimento do professor com cada estudante, o relacionamento entre os alunos e as trocas de experiências vividas nestes dois anos, com certeza agregará para a formação como um todo. Afinal nenhum de nós somos mais os mesmos, crescemos e aprendemos e essa busca por sermos cada dia melhores é algo que vamos conquistando aos poucos”.

Tempo de adaptação

Entre muitas áreas impactadas, a educação foi uma das que mais teve prejuízos durante a pandemia. Os alunos ficaram fora da sala de aula por mais de um ano e meio.

Para o retorno obrigatório foi levado em conta a cobertura vacinal do estado, os indicadores de queda de contaminados e a melhoria da capacidade do sistema de saúde em atendimento dos infectados pelo coronavírus. Aliado a isso, boa parte dos estabelecimentos de ensino se preparam para receber os estudantes, com os cuidados sanitários, como uso obrigatório de máscaras, aferição da temperatura, disponibilidade de álcool em gel e uso individualizado de garrafinha ou copo de água.

Mas, Wanderly afirmou que o professor em sala de aula, além dos conteúdos pedagógicos, terá que lidar com o reforço diário e repetitivo destas regras. “Alguns educandos já têm isso como hábito e terão esses cuidados redobrados, mas, para outros, no entanto, será necessária uma intervenção de orientação e cobrança”.

Com esse regresso a um novo normal nas escolas, Wanderly salientou que é necessário todos, comunidade escolar e famílias, estarem atentos às dificuldades de adaptação socioemocional. A especialista explicou que o isolamento social e o distanciamento escolar têm apresentado interferências na aprendizagem. “O ser humano é um ser social, interage com a família, que é seu primeiro grupo, e depois com o ambiente escolar. É necessária a troca de visões e vivências do dia a dia. Por isso, a escola mais do que nunca precisa ser acolhedora, ouvinte e observadora. O diálogo entre família e escola necessita ser mais agregador que antes. É claro que há uma grande preocupação com a defasagem escolar, com os conteúdos não aprendidos, no entanto o processo ensino aprendizagem envolve afetividade”.

Wanderly garantiu que envolver o aluno emocionalmente é a chave para a aprendizagem. “Acolhimento é a questão principal e as rodas de conversas e da leitura serão imprescindíveis, para que esse envolvimento traga aconchego, segurança e pertencimento”.

O medo da volta

O vírus não foi embora e muitas pessoas ainda convivem com o medo do contágio e da letalidade. Wanderly sugeriu que as escolas devem trabalhar com mais intensidade as aulas de artes e música e a educação física, como forma de diminuir a ansiedade apresentada, e estimular o cognitivo.

A especialista lembrou que os conteúdos devem ser apresentados de forma lúdica, com jogos e brincadeiras. “Outro ponto que veremos de forma bem evidente é a diferença acentuada aos níveis de aprendizagem, pois enquanto alguns alunos tiveram computadores e rede wifi disponível para seus estudos, outros usaram celulares com redes de dados, e, entretanto, muitos outros não tiveram esses mesmos acessos e estudaram por meio do material impresso ofertado pela escola. Além disso, existem estudantes que tiveram menos oportunidades ainda”.

A especialista em educação garantiu que a volta na totalidade será muito mais fácil e fluirá tranquilamente. “Ouvir o professor, ver seus gestos, seu olhar e seu sorriso, mesmo que atrás de uma máscara, trará afetividade e envolvimento. A intervenção de um aluno durante uma explicação, faz com que outros rapidamente sanem suas dúvidas. Desta forma a escola cumpre seu papel de interatividade e sociabilidade”.

Escola e família

Família e escola, pais e direção, alunos e professores precisarão de estar em sinergia. Isso será o fator preponderante para o sucesso do retorno e a recuperação da defasagem no aprendizado. “Temos que olhar para trás e ver que foi muito mais difícil passarmos por uma pandemia. Temos recursos, tempo, conhecimento e a principal saúde”.

Segundo Wanderly, a volta às aulas presenciais é um fechamento de um ciclo. “As escolas foram as primeiras a fecharem suas portas e estão sendo as últimas a serem abertas em sua totalidade. Cuidamos dos nossos pequenos, com amor, carinho e responsabilidade, por isso, esse tempo foi necessário. Um período de aprendizado”.

A educadora ratificou que os alunos foram os mais afetados em termos de convívio. “Os adultos, na sua grande maioria, saíram para trabalhar, foram às farmácias e aos supermercados e outras coisas. Os nossos pequenos se limitaram às lições em casa, aulas remotas, TV, brinquedos na sala e, no máximo, brincadeiras no quintal”.

Wanderly espera que o retorno às salas de aulas seja palco de muitas histórias, emoções e da certeza que eles foram mestres na arte de viver a vida de criança em meio a uma pandemia. “Ao voltar da escola, meu filho repetiu por várias vezes o quanto ele estava feliz por sua escola voltar a funcionar de verdade, e essa alegria dele só reforça tudo o que disse, o quanto é importante para as crianças o envolvimento social no ambiente escolar.”

Wanderly é servidora pública municipal e durante esses 22 anos esteve em sala de aula com as faixas etárias de 2 a 10 anos. Nesse período, por 15 anos, atuou na gestão de unidades escolares e esteve à frente de CRECHES, EMEIS (Escolas Municipais de Educação Infantil) e EMEFS (Escolas Municipais de Educação Fundamental), nas funções de Coordenadora Pedagógica, Vice Diretora Escolar e Diretora Escolar. A especialista é pós-graduada em Gestão Escolar, Educação Especial e MBA em Gestão Educacional, e, atualmente, é coordenadora do polo da Univesp, em Artur Nogueira (SP).

Esdras Domingos

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