• Da redação

HOMENAGEM AO PIET


HORA DA DESPEDIDA


No velório, como uma homenagem final, antes do fechamento do caixão, a família se reuniu próxima ao corpo de Piet e a filha mais filha, Lize de Block, leu o seguinte texto em nome de todos, mas principalmente dos filhos:


“Piet, Petrus, Pai

Nasceu na Holanda. Uma família de 10 irmãos. Ele era o segundo.

Teve uma infância feliz, com brincadeiras e trabalho. Nasceu no período da guerra, fato que traz algumas consequências na alma.

Veio para o Brasil com 15 anos. Na chegada, ficou sozinho em Santos com todo o patrimônio da família pois não cabia no ônibus. Deram um cacho de bananas para ele passar o dia. Desde cedo aceitava desafios.

Trabalhou muito na terra. Ao lado do pai, dos irmãos e depois na Terra Viva.

Não foi fácil para nenhum imigrante. Nem para eles. Nem para ele. Humor é o que nunca faltou. Comeu carambolas com arroz, um ano inteiro, ervilhas... coisa que ele dispensava depois de casado.

Ele foi agricultor. Lavrador por natureza. E por profissão. Cheirava a terra quando sentia vontade de plantar.

Olhava sempre para o céu. Sabia das chuvas, sabia dos ventos. Amava ver as plantações. A Terra Viva foi um grande amor. Tinha muita dedicação e gratidão pela Terra Viva.

Ultimamente, cuidava das plantas do jardim. Mesmo sentindo muita dor, não deixava as plantas murcharem.

Casou com Ank. Não consigo imaginar uma esposa melhor. Em fevereiro, completariam 53 anos de casados. Há uns 15 anos minha mãe descobriu que ele era hiperativo. São pessoas bem diferentes e que se completavam. A última frase que eu ouvi dele foi: “Quero ver a ANK.”

Tiveram seis filhos. Imaginamos que Mariana, a caçulinha, o está recebendo neste outro lugar, juntamente com outros, como seus pais, cunhados e amigos. Nós, filhos que estamos aqui, somos muito gratos por toda educação, apoio e amor que ele deu de formas diferentes a cada um de nós. Pois somos todos muito diferentes uns dos outros.

Naturalizou-se brasileiro. Adotou este país como pátria.

Viveu intensamente.

Dedicou-se às Danças Folclóricas. Muita gente agradece o professor de danças que ele foi. Temos certeza de que fez diferença na vida de muitos jovens e adultos (que hoje já nem são tão jovens assim...). Posso garantir que ele aprendeu muito também. É recíproco. Ele é infinitamente grato às Danças Folclóricas. E por meio disso chegou à Expoflora. Descobriu-se um anfitrião. Muitos encontros aconteceram exatamente neste lugar. Ele era um pouco este lugar.

Também foi através das Danças Folclóricas/Terra Viva que ele descobriu as danças circulares. Outra paixão que viveu intensamente. Muitas novas aprendizagens e amigos e amigas aconteceram desde então.

A vida é uma dança. Uma transformação. Dança Viva tem este nome inspirado na Terra Viva. Dança Viva já tem mais de 15 anos.

Ele também é a dança.

Recebeu muitas homenagens em vida. Festas, discursos, presentes. Condecorações, até da Rainha da Holanda; a estátua da cidade. Agradecemos o carinho e amor a ele.

Sobre a estátua, ele nunca falou muito. Não sabemos (Piet e nós) muito bem como lidar com isso.

Se a estátua ficar, que ela seja símbolo de cultura, de trabalho e serviços voluntários, de viver com paixão, de fazer uma comunidade melhor. Esse sim, é o legado dele.

Gratidão a todos que sempre estiveram e estão ligados a ele. Todos que ajudaram e ajudam Piet ao longo do caminho.

Somos agradecimento neste momento.”




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