• Da redação

Indígenas visitam Holambra e falam sobre visibilidade nos tempos atuais

Entrevistados ressaltam acolhimento das pessoas e beleza de Holambra


Noemi Almeida

No início deste ano, o presidente Jair Bolsonaro se envolveu em uma polêmica após afirmar que "Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós". O assunto da postagem era sobre a criação do Conselho da Amazônia para proteger terras indígenas, tema que tem ganhado visibilidade desde quando ocorreram as queimadas na floresta brasileira. Apesar de ser noticiada apenas como pauta da região norte do Brasil, o tema "Visibilidade indígena" está mais perto do que imaginamos. Em Holambra, por exemplo, diversas tribos marcam presença todos os anos em eventos como a Expoflora. Muitas dessas tribos vêm, inclusive, de regiões protegidas no litoral de São Paulo e de aldeias com quase nenhuma presença de tecnologia. Saiba o que esses visitantes pensam sobre a cidade e como eles se posicionam diante dos novos desafios para a cultura indígena nos tempos atuais.


Jandira - Aldeia Boa Vista, Ubatuba

Já fazem quatro anos que venho a eventos em Holambra. Conheço a cidade há mais tempo, já que há dez anos minha irmã vem fazer trabalhos culturais por aqui. Sempre me sinto bem recepcionada, as pessoas são gentis e ficamos felizes por conhecer uma cidade que preserve tanto a natureza, valorize tanto as suas flores. É tudo muito bonito. Moramos na Aldeia Boa Vista há 50 anos. Nossas casas são de palha e costumamos ficar afastadas das pessoas da cidade grande. Nesses últimos tempos, há muito mais olhares tornos sempre que as pessoas nos veem. Nossos caciques vão sempre há Brasília lutar pelos direitos da aldeia que a cada dia tentam tomar de nós. Isso é muito triste.

Indígena precisa ser um sinônimo de orgulho. Nossos artesanatos, por exemplo, resistiram conosco em mais de quinhentos anos de existência. Ainda assim, poucos o conhecem, os têm e os valorizam. Por isso me sinto muito feliz quando sou chamada para expor meu material e dar continuidade a minha cultura. É uma grande satisfação fazer parte disso.


Guaraci - líder da tribo Uwewiju, Peruíbe

É sempre bom começar falando um pouco da demografia indígena no Brasil. Muitos acreditam que nossas tribos só existem no norte, sendo que São Paulo só perde perde para a Amazônia e para o Mato Grosso em população indígena. Temos 56 aldeias no Estado, tanto no litoral sul quanto no litoral norte. Tribos se estendem no Vale do Ribeira, região de Registro, Jaraguá, Centro Oeste Paulista e na região de Bauru. A minha aldeia, por exemplo, está na quele local desde a época dos Jesuítas, há mais de 300 anos. Apesar de tanto tempo ainda vivemos do jeito tradicional, isolados na mata, preservando o idioma, vivendo da nossa pesca, cultivo e venda de artesanato.

Conheci Holambra há dois anos. Minha função na aldeia é divulgar nossa cultura por meio de apresentações, palestras e artesanato. Fico muito feliz de ter portas abertas para nós, ainda mais em um período político tão difícil para o nosso povo.

As pessoas acham que porque nós falamos português, temos celular e andamos de carro não somos mais indígenas, perdemos a nossa identidade. Que estamos "gente", igual a todo mundo. Não levam em consideração que ser indígena está no sangue e isso não se perde com o tempo e nem com os avanços que fazemos. Muitos acreditam que temos ajuda do governo, que recebemos algum benefício. Isso não é verdade, sobrevivemos da pesca e infelizmente o mundo capitalista não está levando em conta as nossas necessidades. Nossas florestas estão sendo atacadas. Caçadores desrespeitam as áreas de proteção. Indústrias e as próprias prefeituras invadem nosso espaço para continuar com um suposto progresso, que só enche os bolsos dos mais ricos, ruralistas e latifundiários.




Tamicuã Pataxó - Aldeia Barra Velha , Porto seguro - Bahia

Vejo há quatro anos para a região de Holambra para divulgar a cultura em escolas em eventos. Percebo que a cidade está a frente de outras do Brasil em muitos aspectos, principalmente na abertura para a cultura de outros povos: brasileiros e estrangeiros. É por isso que posso falar a realidade, sem rodeios, sobre nosso maior desafio:

Trata-se muito o indígena como um item a ser admirado pelo fato de usarmos penas, cocares e tocarmos músicas diferentes. Poucas pessoas, no entanto, nos ouvem e nos tratam como seres humanos - munidos de necessidades e sonhos. Quanto a isso, posso apontar a nossa maior frustração: a de viver aos moldes dessa sociedade. Nós somos livres, amamos a natureza e trabalhamos para crescer juntos com ela. O que vocês chamam de progresso nos pressiona, quando na verdade nosso sonho é voltar a viver como nossos pais, carregando apenas a nossa essência.

Mesmo entre o nosso povo somos diferentes - não existem só os que andam pela mata, têm cabelos escorridos e olhos rasgados. Ser indígena está no sangue e neste país tão grande também somos miscigenados. É preciso prestar atenção, aprender com o nosso povo e não pensar que apenas levando nossas penas para casa se está apoiando a nossa causa. Nós já somos seres humanos, igual a todos e ansiamos compartilhar o nosso mundo com qualquer um que tiver curiosidade.



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