• Da redação

Infectologista americano aponta ações contra o coronavírus


Helga Vilela



Nesta última terça-feira, dia 24, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou uma "aceleração muito grande" no número de casos do novo coronavírus nos Estados Unidos, o que potencialmente poderá tornar o país o novo epicentro da pandemia. Na terça, o país contava com 42 mil pessoas contaminadas e Nova York era o estado mais afetado do país, com metade dos diagnósticos reportados nos EUA (mais de 25 mil casos). Já na quarta-feira, o número ultrapassava os 54 mil, com mais de 700 mortes.


O infectologista e epidemiologista da Divisão de Controle de Doenças do Departamento de Saúd

e de Nova York, Daniel Eiras, atende pacientes com infecções como HIV e tuberculose mas, atualmente, está servindo como membro do grupo de resposta emergencial da cidade à pandemia de coronavírus (assim como quase todos os médicos que trabalham no Departamento de Saúde de Nova York). Confira entrevista de Eiras ao Jornal da Cidade de Holambra.

Filho de pais brasileiros especialista tece comparativos da epidemia nos dois países



Jornal da Cidade: Já vivenciamos outros períodos de crise com pandemias e epidemias num passado recente. Esse novo vírus apresenta aspectos diferentes e que têm exigido outras abordagens ou cuidados nesse processo?

Daniel Eiras: Primeiramente, alguns detalhes específicos que sabemos sobre essa pandemia. É causado por um vírus chamado SARS-CoV-2, um membro da família dos coronavírus, que inclui outros vírus como SARS e MERS. O SARS-CoV-2. Causa uma doença chamada COVID-19 (COronaVIrus Disease 2019). Embora as comunidades científicas e de saúde pública mundiais tenham aprendido muito com algumas das recentes epidemias de doenças infecciosas, incluindo a SARS em 2003, o H1N1 em 2009 e o Ebola em 2013-14, na verdade temos que olhar bem atrás, para a gripe espanhola de 1918 para encontrar uma pandemia semelhante a esta em termos da extensão das infecções e seus efeitos na sociedade e na vida cotidiana. Não vimos durante nossa vida uma pandemia como essa. Dito isto, muitos dos princípios básicos de saúde pública que se aplicaram a epidemias anteriores também se aplicam a este: lavar as mãos, testar e isolar rapidamente e identificar subconjuntos vulneráveis da população (por exemplo, pessoas com doenças pulmonares e cardíacas).

JC: Considerando as diferenças econômicas, políticas e culturais dos países e continentes, com relação à conscientização e às ações de prevenção e combate à disseminação do coronavírus, como o senhor compararia o Brasil, os Estados Unidos e a Itália?

Eiras: Com relação à disseminação do coronavírus, é necessário pensar em três questões principais, incluindo densidade populacional e facilidade de movimentação, disponibilidade de recursos médicos, eficácia da saúde pública e medidas governamentais. Ao considerar esses tópicos, os três países (Brasil, Estados Unidos e Itália) provavelmente têm mais semelhanças do que diferenças. São países amplamente desenvolvidos com muitas cidades densamente povoadas (pelo menos no caso da costa atlântica no Brasil). Também têm governos democráticos bem estabelecidos, capazes de implementar programas de saúde pública com graus variados de vontade política e engajamento social. Eu acho que uma distinção mais importante é quando você compara a resposta da China e da Coréia do Sul contra os Estados Unidos ou o Brasil. Nesse sentido, a questão se resume à escala: a China conseguiu "achatar a curva da epidemia" em três meses, adotando programas extremos, incluindo a construção de dois hospitais totalmente funcionais (com 2.600 leitos) em menos de duas semanas para atender à necessidade de atendimento ao paciente na província de Hubei (a região mais atingida pelo COVID-19). A Coréia do Sul instituiu uma extensa campanha de testes iniciais que foi capaz de testar até 20.000 pacientes por dia e, portanto, conseguiu isolar os pacientes adequadamente. Esses tipos de medidas certamente tiveram o efeito de salvar vidas nesses países.

JC: Aqui no Brasil vivemos um momento político conturbado. Parte da população têm tratado o tema do coronavírus com certo desdém. Alguns chegam a afirmar que a preocupação demonstrada pela imprensa é exagerada ou até mesmo mentirosa. Como o senhor avalia esse delicado momento com o Coronavirus à luz dessa situação ideológica no Brasil? Quais consequências podemos ter ou já estamos tendo?

Eiras: Na minha opinião, não há papel para a política quando se trata da resposta da saúde pública ao coronavírus. Fim da história. Os políticos têm um papel de liderança, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, e devem dar o exemplo. Isso inclui levar a pandemia a sério - qualquer atraso causa diretamente um aumento no número de pacientes que morrem.

JC: No Brasil a recomendação é permanecer em casa e evitar aglomerações ou muito contato externo. Essas são ações precisas ou tardias?

Eiras: Ficar em casa, como parte do "distanciamento social" ou da auto-quarentena, é provavelmente a medida mais eficaz que a população pode tomar para diminuir a propagação de um vírus respiratório como o SARS-CoV-2. Estudos recentes indicam que até 70% dos casos de coronavírus são transmitidos por pessoas portadoras assintomáticas do vírus. Como você pode ver nos relatórios dos Estados Unidos e da Europa, a maioria de reuniões foram encerradas ou canceladas, incluindo eventos esportivos, shows, concertos e escolas e faculdades públicas. A recomendação nos Estados Unidos agora é evitar grupos de mais de 10 pessoas. O objetivo disso é diminuir o número de pessoas potencialmente expostas ao coronavírus. Isso vai certamente diminuir a curva epidêmica e, esperamos, evitará que os hospitais se sobrecarreguem.

JC: Como os Estados Unidos lidou com a pandemia de coronavirus em seu território? Quais foram as ações políticas e científicas nesse processo?

Eiras: Infelizmente, os Estados Unidos tiveram uma resposta inicial relativamente lenta à epidemia. As medidas iniciais foram focadas na "contenção", o que significa impedir entrada do vírus no país (as medidas incluíram o fechamento de fronteiras e o monitoramento de pessoas entrando no país). Quando ficou claro que já havia disseminação de coronavírus, os Estados Unidos adotaram uma estratégia de "mitigação", que incluía medidas para limitar a disseminação na comunidade (como o fechamento de escolas e a recomendação de auto-isolamento).

JC: Semana passada muitos eventos artísticos, esportivos e políticos foram cancelados. Mas o presidente Bolsonaro, que estava em isolamento, se retirou do isolamento e manteve a manifestação e ato em apoio à si mesmo, além de criticar a realização de jogos de futebol no pais com portões fechados e a suspensão das competições esportivas. Como essas ações afetam a campanha de controle e combate ao coronavirus?

Eiras: Como mencionei antes, é de vital importância que os líderes políticos sirvam como defensores da resposta da saúde pública. Na minha opinião, um exemplo de liderança eficaz foi o Andrew Cuomo, governador do estado de Nova York. Nas últimas semanas, ele está realizando entrevistas coletivas diariamente para informar o público sobre o número atualizado de casos e as várias medidas de saúde pública que estão sendo implementadas (incluindo o uso de recursos estaduais para produzir desinfetante para as mãos, pois há atualmente uma grave falta no estado).

JC: Quais são as etapas pelas quais os Estados Unidos e o Brasil passarão nos próximos meses com relação ao Coronavírus?

DE: As projeções atuais são de que a epidemia nos Estados Unidos atingirá o pico nos próximos 45 a 70 dias, o que significa que os atuais planos de isolamento social e cancelamento de grandes reuniões provavelmente continuarão até pelo menos agosto ou setembro. Enquanto isso, o governo está estudando e deve adotar medidas de alívio econômico a indivíduos e empresas, na tentativa de impedir uma recessão.

JC: De tempos em tempos a humanidade vivencia pandemias como essa do coronavírus. Até que ponto são processos naturais e até que ponto não são? Existe alguma ação humana que pode catalisar ou favorecer ou potencializar esses processos?

Eiras: Epidemias como o COVID-19 são sempre processos naturais, no sentido que elas geralmente começam quando as pessoas entram em contato próximo com uma nova espécie de animal. A teoria atual é que o vírus SARS-CoV-2 se originou em uma espécie de morcego no centro da China e depois se espalhou para um hospedeiro intermediário que estava disponível em alguns dos mercados de animais vivos na cidade de Wuhan em novembro de 2019. Espalhou-se por toda a comunidade até que hospitais na província de Hubei e regiões vizinhas começaram a ver um aumento no número de pacientes internados por pneumonia grave. Dentro de um mês, essa nova espécie de coronavírus foi identificada. Infelizmente, porém, com a frequência e a velocidade com que as pessoas viajam pelo mundo nesse momento, o vírus já havia se espalhado antes que as medidas de contenção pudessem ser efetivas.

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