• Da redação

Que paisagem queremos?


O que vemos está intimamente ligado ao que sentimos



A boa arborização, com copas largas e generosas, os canteiros coloridos e a arquitetura peculiar de Holambra são elementos essenciais de seu sucesso como destino de lazer e alegria. No entanto, a ânsia de ampliação de opções comerciais e a cultura do medo, que multiplica muros altos, cercas eletrificadas e construções desarmoniosas, ameaçam o charme do município.


Árvores frondosas têm sido eliminadas sem dó e sem medir o impacto de calor e desconforto que sua ausência provocará. Mesmo se o plantio de mudas as repõe, estas levarão anos para trazer o mesmo efeito de beleza e encantamento à nossa paisagem – isso se de fato vingarem.


A espera pelo seu crescimento nos expõe a mais ruído, poluição e poeira, além de exigir um gasto expressivo de água para suas regas. Enquanto que os espécimes adultos eliminados, ao contrário, retinham umidade, jogavam vapor d´água na atmosfera pela sua transpiração, ajudavam a infiltrar água no solo com suas longas raízes e formavam uma proteção natural para o bem estar de moradores e visitantes.


Esta eliminação de pequenos bosques e de árvores grandes tem acontecido em vários pontos da cidade de forma acelerada. Até mesmo no terreno marcado para ser a Praça Margaridas, na rua Freesias. Antes, amplamente decorado com charmosas quaresmeiras, este agora apresenta uma passagem larga vazia, com quase todas elas arrancadas. Só restou chão batido onde antes havia cor, sombra, aromas e beleza.


Não seria o verde uma oferta mais atraente de descanso e diversão em um local destinado a ser uma praça? A abrupta transformação era mesmo desejo dos moradores do entorno? Foi avaliado delimitar caminhos, colocar lixeiras, balanços e bancos, por entre as árvores já presentes e desenvolvidas – equipamentos que poderiam ser instalados em parceria com empresas locais sem onerar as contas públicas?


A placa ali instalada explica que a destruição do bosque existente e a reconstrução completa de uma nova paisagem custará quase R$ 358 mil. Verba obtida junto ao Governo do Estado. Mas somos todos uma única nação e não importa de que instância sai o recurso, no fundo, ele surge mesmo de nosso suor, ao pagarmos nossos impostos.


Não só o verde sofre


A arquitetura gentil e acolhedora que fez a fama de Holambra também recebe golpes constantes. Fachadas típicas somem por trás de letreiros padrões, vistos em qualquer outro lugar do Brasil. Caixotes de concreto, sem atrativo algum, tomam pontos estratégicos da cidade. Bairros inteiros surgem isolados atrás de muralhas com câmeras de vigilância ou com residências cercadas por muros de concreto sem uma planta ou árvore sequer.


As casas com amplos jardins, cuidadas com capricho e decoradas com itens bem humorados transmitem aos visitantes uma sensação de acolhimento e descontração. Sorrisos espontâneos brotam ao se observar detalhes como estatuetas de pequenos animais ou os bonecos que simulam crianças espiando janelas.


Que tipo de cidade teremos se esta tradição se perder?


Muros baixos, na realidade, ampliam a própria segurança de quem está no interior dos imóveis. Afinal, de que adianta concreto alto depois que o ladrão já entrou? Manter a visibilidade facilita aos vizinhos e à ronda da Guarda Municipal notar qualquer movimento suspeito.


Paisagens estão intimamente ligadas ao que sentimos. Árvores, lagos, canteiros de flores nos alegram e nutrem a alma. Concreto, alarmes, cancelas, ao contrário, fazem a mente logo associar estas construções a perigo e riscos eminentes.

Por isso, foi lançado, ano passado, o movimento por um Estatuto da Paisagem. Uma proposta a ser construída de forma participativa, com escuta a todas as partes interessadas, em busca de expressar valores e cuidados para preservar os atrativos e a qualidade de vida dos Holambrenses e de todas e todos que nos visitam. Quem quiser se juntar a ele pode escrever para narbocz@gmail.com

Neuza Árbocz – jornalista e gestora de projetos socioambientais.

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