• Da redação

Um inédito Dia do Trabalho

Sexta-feira, 1 de Maio : Dia do Trabalho. Mas em um ano de Coronavírus, com o distanciamento social imposto para o enfrentamento da doença, as tradicionais manifestações (e até mesmo comemorações) foram feitas de forma diferente: online, isoladas. Afinal, desde o início da pandemia, milhões de trabalhadores tiveram a rotina afetada. Férias foram antecipadas, contratos de trabalho suspensos ou salário e jornada reduzidos. Muitos estão em home office, enquanto outros foram demitidos ou estão se reinventando.

Sindicatos de vários países já adiantaram que as manifestações não serão esquecidas, assim como mensagens na internet para lembrar daqueles que seguem trabalhando para garantir a qualidade de vida dos demais – desde profissionais da saúde até garis e balconistas. Em Holambra, esse ano muitos sentiram falta da tradicional Festa do Trabalhador, que nos últimos sete anos promoveu shows e sorteios na Rua da Amizade.

Mas como os holambrenses estão enfrentando o isolamento e o que esperam do mercado de trabalho após a pandemia? Fé nas relações pessoais A psicóloga Maria Gaciene dos Santos atua como terapeuta infantil, mas os atendimentos pararam na semana do dia 20 de março. Neste momento, Gaciene não vê nenhuma forma de contornar a situação, uma vez que o trabalho não pode ser feito online. “Precisa acontecer de forma presencial, não há o que fazer a não ser aguardar e acreditar que tudo se resolva o mais breve possível”. Mesmo assim, a psicóloga afirma que há sempre motivos para comemorações e listou: temos de agradecer aqueles que conseguiram manter seus contratos de trabalho; aqueles que estão trabalhando em suas casas, mesmo com suas crianças tendo aulas em casa. Otimista, Gaciene acredita em mudanças positivas pós-pandemia. “Teremos encontrado formas diferentes e mais econômicas para a realização de algumas tarefas. Muitos trabalhos poderão ser executados em lugares mais simples, com custos reduzidos de energia, deslocamento. Muitas pessoas foram obrigadas a usar ferramentas de tecnologia, aprenderam e descobriram que são úteis, facilitam processos, poluem menos”. E o principal: ela acredita que esta situação acordará nas pessoas o sentimento de necessidade social e que isso não pode ser substituído por amigos virtuais por excessos de informações diárias. “É preciso estar com os seus, tenho fé em uma profunda mudança nas relações pessoais”. Seguir acreditando Gabrielly Alves de Barros, de 19 anos, é auxiliar de loja em uma empresa de adesivos e também trabalha, aos finais de semana e feriados, como guia em uma agência de turismo. Com o coronavírus, ela enfrenta duas situações distintas: suspensão temporária do trabalho na loja, enquanto sua atuação na agência foi cancelada, uma vez que os passeios turísticos estão proibidos devido à quarentena. “Mesmo não trabalhando devido à situação atual, acredito que temos muito o que comemorar, principalmente pelos direitos dos trabalhadores conquistados ao longo do tempo e porque não podemos deixar de acreditar que dias melhores virão”. Pós-pandemia, Gabrielly aposta em mudanças no mercado de trabalho. “Muitas empresas demitiram seus trabalhadores e algumas chegaram a declarar falência. É muito triste, ja que as pessoas dependem do trabalho para se manter. Assim, quando tudo se normalizar e as empresas voltarem à ativa, acho que as vagas de empregos serão muito mais concorridas”. Queda X crescimento A rotina do motoboy autônomo Jonas de Almeida Alves, de 29 anos, sofreu mudanças: microempreendedor individual (MEI), Jonas afirmou que os as contratações de seu serviço por parte das empresas “deu uma caída”, pois a maioria dos lugares está fechado. Porém, cresceu o pedido para delivery, do dia a dia, como entrega de alimentação e remédios, pois, “pela prevenção, o pessoal não está querendo sair de casa”. E ele está confiante no futuro. “Quando tudo passar, acredito que haverá um grande aumento de serviços, porque todo mundo vai precisar colocar as atividades em dia”, avaliou. Em relação ao Dia do Trabalho, ele completou: “se passarmos por esta pandemia com saúde, para podermos retornar normalmente ao trabalho, já é um grande motivo pra comemorar. Não podemos desanimar, nem perder a fé, pois dias ruins também são necessários para que os bons possam valer a pena”! Aposta no Dia das Mães A auxiliar administrativo Sílvia Oliveira, de 35 anos, trabalha numa empresa de flor de corte e muitas mudanças foram estabelecidas a partir da quarentena. “Teve semana que não vendemos nenhum botão e os funcionários estão trabalhando meio período. Ficou difícil, zerou. Mas deu uma melhorada nas últimas semanas e temos fé no Dia das Mães”. Com 13 anos de atuação na mesma empresa, Sílvia disse que nunca passaram por situação parecida. “Estamos trabalhando com jornada reduzida neste momento difícil para não precisar demitir ninguém. O que podemos comemorar agora é a nossa saúde e de nossos familiares, além de ter um trabalho, pois com todo cenário que estamos vivendo, muitos perderam seus empregos. Por fim, estamos animados com a comemoração do Dia das Mães, pois para o setor de flores vai ser uma boa alavancada para retornarmos à rotina normal”. Reinventar a rotina A holambrense Neo Santos vive da venda de seus artesanatos típicos, voltados ao turista. E a quarentena, que colocou um fim temporariamente nas visitas, afetou sua renda. “Se não há turista, não há vendas. Minha renda zerou, pois vivo exclusivamente do artesanato”. A saída de Neo foi resgatar sua profissão de costureira e passou a oferecer um produto que, atualmente, tem sido usado por todos: máscaras de tecido. “A venda, direta para um cliente, está dando um pequeno fôlego, deu uma certa liberdade para levantar uma graninha”. Para a artesã, o pós-pandemia será uma surpresa, mas ela prefere acreditar que “da mesma forma que nós paramos de repente, todos estão desesperados dentro de suas casas. Então, quando isso passar, vão querer passear e voltarão a Holambra em busca da paz e da cortesia que oferecemos”. Neo completou que até pode pairar um certo medo no começo e as excursões podem demorar um pouco mais, “mas nosso visitante, na baixa temporada, é de família”. “São pessoas que pegam a estrada e chegam em Holambra. Estou otimista que sairemos dessa bem e até antes do que esperamos”. Profissão do ano! Em 2019, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciaram que 2020 seria o ano internacional da enfermagem e obstetrícia, defendendo mais investimentos para esses profissionais. Hoje, com a pandemia, entre os profissionais que estão na linha de frente para atender a população estão os enfermeiros (por consequência, categoria que está entre as mais afetadas pelo vírus). A enfermeira Adriana Freitas de Brito, de 37 anos, trabalha no pronto socorro da Policlínica de Holambra. Ela conta que com surgimento do Coronavírus, todos os funcionários da saúde redobraram os cuidados ao lidar com o paciente, incluindo o uso obrigatório de EPIs (avental, óculos, máscara, touca). “Antes da pandemia, li um artigo que falava que 2020 seria o ano da enfermagem. E parando hoje pra pensar, realmente 2020 está sendo o ano da enfermagem, pois a pandemia está mostrando o quanto esta profissão é fundamental, como equipe multiprofissional, para o atendimento na saúde”, avaliou, ao frisar que, ao cursar Enfermagem, nunca imaginou que um dia atuaria numa pandemia. “Holambra, por ser pequena - mesmo turística e movimentada - é uma das poucas cidades à frente dos cuidados, dando suporte aos funcionários. Moro em Campinas e vejo as dificuldades por lá”. Mesmo assim, ela enfatiza que, nos dias de hoje, o risco está presente em qualquer lugar. “Fico na triagem, na porta de entrada do atendimento. Acatamos o distanciamento, mas sem esquecer o acolhimento, pois precisamos ter contato com o paciente”. E este Dia do Trabalho, disse Adriana, “será diferente para a enfermagem”. “Podemos comemorar pelo pouco, ou pelo muito, que podemos fazer pelos outros. Fico feliz por poder ajudar o próximo com a minha profissão”. Férias antecipadas Carol Campos, de 23 anos, trabalha há sete meses como balconista em um café e teve as férias antecipadas. “Está péssimo, pois estou em casa. Só minha chefe trabalha, mas com encomendas”, resumiu. Carol acredita que todos estão sujeitos a perder o emprego “devido à complexidade do momento”. “Temos que manter a calma e ter fé na ciência. Por ser um comércio, atualmente o movimento caiu muito, tudo parou. Mas precisamos acreditar que vai passar. E, neste momento, podemos comemorar o trabalho do pessoal da área da saúde, pois sem eles o mundo estaria desamparado”. Rotina mantida, mudanças futuras Maria de Fátima Gomes, de 23 anos, segue normalmente seu trabalho de cozinheira: trabalha todos os dias, com jornada e salário mantidos. “Trabalho todos os dias e já tomávamos todas as precauções com higienização das mãos e ambiente, usando álcool em gel e líquido. Com essa pandemia, os cuidados foram redobrados. Estamos usando máscara, trabalhando em equipe menor e tomando os devidos cuidados para o meu bem e de todos. E contamos com serviço de motoboy para evitar aglomeração no ambiente”, disse. Para ela, o Dia do Trabalho foi criado para comemorar as conquistas dos trabalhadores ao longo da história e, por isso, não vê razões para comemorações esse ano “pois o que vemos são nossos direitos sendo perseguidos e cassados pelo governo vigente e, em meio ao caos que estamos vivendo, o número de pessoas sem emprego é devastador”. “Em meio a tantas incertezas, o que vem à mente é que o mundo será diferente depois da pandemia do Coronavírus. Em se tratando de mercado de trabalho, os que sobreviverem precisarão reaprender a planejar,se reinventar. Acredito que o home office terá um crescimento significativo, mas há um longo caminho a ser trilhado, visto que a economia não é mais a mesma”.

Ajustes

Andreia Santos, de 44 anos, trabalha há 27 anos em uma empresa que atua nos setores de alimentos, flores, mudas e bulbos. Nos últimos 10 anos, ela é encarregada de produção e adiantou que, com a pandemia, o trabalho continua, mas foram implantadas algumas mudanças. Para a saúde de todos, foi incluído o uso de máscara e o horário do almoço acontece sem aglomerações. Logo no início foram afastados trabalhadores acima de 60 anos (a partir do banco de horas ou férias antecipadas) e as gestantes (que estão voltando ao trabalho, exceto aquelas com gravidez de risco, seguindo resolução do Ministério da Saúde). Também teve redução de carga horária, “porque empresa terá de reduzir os custos para rodar”. Andreia destacou que a venda de flores em vaso está lentamente melhorando e há um motivo para comemorar: o fato de ter um emprego. “A empresa não fez nenhuma demissão, mas cortou a hora extra”, exemplificou, ao frisar que todos têm esperança de, quando passar a pandemia, o mercado de flores continuará forte. “Estou agradecida pelo trabalho e acredito que após a pandemia voltaremos mais fortalecidos e renovados”.

Crise X oportunidades

A funcionária pública Noelle Arnaut trabalha no Departamento Municipal de Esportes e explicou que devido à pandemia, todas as atividades esportivas foram canceladas e, desta forma, estão investindo na manutenção do espaço físico. Ela acredita que a estabilidade, sem dúvida, é um alento, porém, “é importantíssimo exercermos nosso trabalho, especialmente em um período em que as pessoas tanto necessitam de nossos serviços”. “Apesar de estarmos enfrentando esta pandemia do Coronavírus, a cidade não pode parar. Os funcionários públicos estão atuando normalmente para manter os serviços em funcionamento, desde os trabalhadores da área da saúde e policiais municipais até motoristas de ônibus, equipes de limpeza e coleta. O trabalho administrativo, na Prefeitura e nos demais departamentos, segue sendo realizado. E acredito que a atuação do serviço público é fundamental para que a população fique em casa e cuide de sua saúde com tranquilidade, sabendo que a cidade também está sendo bem cuidada”. Para Noelle, este será, sem dúvidas, um Dia do Trabalho diferente, sem festas ou manifestações por todo país. “Mas isso não deve ser um obstáculo para a celebração de todas as conquistas e da luta por melhorias. Em especial neste momento, acredito que devemos ressaltar o papel fundamental dos trabalhadores na linha de frente nesta crise da saúde. Acredito também que as relações de trabalho serão profundamente alteradas. Demissões e fechamento de negócios serão inevitáveis e será necessário que empresários e trabalhadores se reinventem e proponham soluções inovadoras. A situação é difícil, mas penso que situações de crise também levam a oportunidades”.

Turismo nacional

Vicente Dezzotti Oliveira, de 29 anos, é guia de turismo desde junho de 2019. “Estou em casa, meu salário não teve alterações. Na agência está funcionando só a parte administrativa, por home office, atendendo clientes só por ligações, mensagens e redes sociais”. Nesta sexta-feira, avaliando de forma geral todo o país, Vicente disse que a atual situação política/econômica voltada aos trabalhadores não viabiliza qualquer comemoração. “Mas levando em consideração o quadro geral do país, quem manteve seu emprego ou quem conseguiu um emprego tem algo para agradecer”. No pós-pandemia, ele aposta que vai mudar demorar um pouco “até engrenar tudo”. “Na questão turística, o mercado nacional vai ser mais valorizado, pois acho que as pessoas vão optar pelo Brasil por conta do receio que terão do exterior. E vai ter mais trabalhos informais em geral”.

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